Quando vejo um filme que foi adaptado de uma obra que gosto ou que sou fã, tento fazer um exercício de desprendimento da obra, aceitar que são mídias diferentes e mudanças são necessárias. Pois nem tudo que funciona no livro, funcionaria no filme adaptado.
Por isso não me incomodou o novo vigor físico de Poirot. Como fã, sei que as únicas partes funcionais do seu corpo são a sua boca de gourmet e as pequenas células cinzentas do seu cérebro. Vê-lo correndo e lutando poderia ofender fãs mais xiitas, mas não é o meu caso. Gostei! funcionou muito bem no filme e as cenas ficaram boas, dentro do contexto do filme e combinaram com o Poirot mais jovem de Branagh.
Falando nisso, o Poirot de Branagh me encantou muitíssimo. Adorei como ele diverte e ao mesmo tempo apresenta o personagem: suas manias, a vaidade, os prazeres da sua vida: comer, viajar e desvendar crimes. O grande elenco estrelado fica um pouco atrás na questão de atuação. É compreensível, pois são muitos personagens, dar profundidade a um personagem com tão pouco tempo em tela deve ser muito difícil. Não vejo destaque em nenhuma atuação, ao mesmo tempo não consigo condenar nenhuma, são todos bons atores e dificilmente erram. No entanto, condeno bastante o tom melodramático que acompanhou o filme na parte final. Achei dispensável, exagerado, risível até.
Gostei de ver presente no filme as referências a peconceitos tão presente na obra de Agatha Christie. Uma crítica que a autora fazia ao que se ouvia frequentemente nos meios sociais em que ela frequentava. Esse aspecto de sua obra é comumente esquecido, mas tão importante.
Foi emocionante ver o meu primeiro filme de Agatha Christie no cinema, ainda mais nas mãos de um ator/diretor tão talentoso. Mesmo que o filme não tenha alcançado as minhas expectativas, ficou um gostinho bom de quero mais.
domingo, 17 de dezembro de 2017
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Ghost in the Shell - Masamune Shirow
A história se passa no futuro, no ano de 2029, e acompanha
as missões da seção 9, um grupo antiterrorista, especializado em crimes
cibernerticos e composto por ciborgues e humanos. A protagonista é a Major
Motoko, uma ciborgue de personalidade despachada e com senso de humor apurado.
Não foi uma leitura que me agradou, apesar de alguns
aspectos positivos que destaco mais adiante. Porém, reconheço que o assunto não
me atrai, e desconheço muito do que se fala na história sobre robótica, inteligencia
artificial e armamentos. Isso tudo deixou a história pra mim mais confusa e mais intrincada do que já é
naturalmente. Também me incomodou bastante a maneira objetificada e fetichista como
a protagonista é mostrada. Não só a protagonista, mas todas as personagens
femininas dessa historia são exibidas nuas, em poses sensuais, erotizadas, em
ângulos claramente direcionados para destacar certas partes do corpo feminino.
Além disso, não existe desenvolvimento de personagens, todos
eles são apresentados de forma superficial. Não sei se foi intencional, já que
a maioria é robô. Mas fica dificil se apegar a personagens sem substância. A leitura é cansativa, e só apresenta algum
vigor na terceira e última parte, quando aparece o vilão Mestre dos fantoches.
Para os pontos positivos, destaco as notas de rodapé. O
autor usa bastante esse recurso ao longo do mangá para conversar com o leitor
sobre a própria obra, sobre ciência, filosofia e assuntos aleatórios. Pra mim, ficou
sendo a melhor parte do livro, pois instiga algumas reflexões interessantes (como
quando pergunta: Quais são os três maiores acontecimentos da humanidade? Eu diria:
a roda, o fogo e a eletricidade.)
Outro aspecto interessante é a sociedade futurista em que a
história é ambientada. Composta por humanos e robôs, tecnologias avançadas, etc.
Também achei interessante existir uma certa hierarquia entre os robôs, sendo
alguns considerados de “baixo nível”, conforme a tecnologia utilizada ou ano de
lançamento. Infelizmente, nenhum desses aspectos é apropriadamente desenvolvido
pelo autor.
Bom, o livro tem uma história confusa, que promete muito, mas
entrega pouco. A leitura é arrastada, apesar de ser um mangá (leitura de imagem, mais curta e mais
rápida). A impressão que fica é que poderia ter sido uma grande história, mas
que se perdeu em algum lugar entre roteiro e o desenvolvimento de personagens.
Assassinato no Expresso do Oriente - Agatha Christie
O grande e nada modesto detetive Hercule Poirot tem que investigar um assassinato ocorrido no famoso Expresso do Oriente, durante uma nevasca que impede o deslocamento do trem. O vaidoso detetive encontra algumas dificuldades, desafios, muitas pistas e muitos suspeitos, nesse seu mais famoso caso. Contudo, ninguém é páreo para as pequenas ideias do detetive, o que ele sempre faz questão de deixar bem claro.
Na releitura desse clássico de Agatha Christie, procurei
observar o que antes me passou batido: o percurso do trem e o tempo da viagem.
Fiquei surpresa ao descobrir que o livro não se passa completamente no Expresso
do Oriente, mas começa na Síria, num trajeto que segue de Alepo até Constantinopla
(atual Istambul). É nesse trajeto esquecido que o meu detetive favorito tem
acesso a uma conversa alheia que é importante no desenrolar dessa história.
O percurso do Expresso do Oriente mostrado nesse livro se
origina então em Constatinopla, e segue com várias paradas até Londres, destino
final de Hercule Poirot e de alguns personagens. Percorre realmente toda a
europa, e tem tempo de viagem estimado em 3 dias. Mas nos trilhos desse trem, surge uma nevasca inesperada acompanhada de um assassinato, e nada mais sai como previsto.
É engraçado reler um livro policial, nunca tinha passado por
essas experiência antes. Sabendo do desfecho, as conversas e o comportamento dos
personagens ganham novo significado. E mesmo sabendo o final, surpresas ainda são possíveis, graças ao talento da Dama do Crime.
Um aspecto interessante que tinha esquecido sobre a autora, ela costuma zombar do leitor, através da voz
do protagonista, lembrando que o leitor é incapaz de solucionar o mistério, e que
não possui a lucidez e a imaginação necessárias para desvendar o crime junto
com o detetive. Uma
brincadeira da autora, claro! Mas também não deixa de ser uma provocação para
que usemos a nossa pequena massa cinzenta.
Uma excelente leitura, rápida e prazerosa.
segunda-feira, 24 de julho de 2017
Vagabond #9 #10 #11 - Takehiko Inoue
A leitura de Vagabond tem sido maravilhosa e surpreendente. É um mangá de samurai, de ação, mas ao mesmo tempo é tocante, delicado e poético, sem ser piegas ou dramático. Os personagens coadjuvantes são carismáticos, cheios de camadas, crescem junto com o protagonista e alguns até disputam a preferência com Musashi.
Nos arcos desses volumes, Musashi enfrenta os samurais da Casa Yagyu, justamente a família que acolheu Otsu, lá no início da saga. O chefe da casa é um velhinho muito fofo, conhecido pelo nome de O inigualável. Achei esse arco o mais divertido até agora, pois os planos de Musashi para conseguir desafiar o castelo são originais e bem criativos. Musashi é um samurai sem técnica definida, que se garante na luta apenas com o seu instinto e grande força, mas ele consegue compensar essa falta de técnica com ousadia, inteligencia e criatividade.
Sobre os outros personagens, foi uma delícia rever Takuan. Posso dizer o mesmo sobre Matahachi, tem sido muito engraçado ler as histórias dele, da mãe e do tio. Otsu está crescendo de forma formidável, e está se tornando uma das personagens mais interessantes do mangá, principalmente depois da decisão de partir da Casa Yagyu. Jotaro, no entanto, é o ponto fraco, esse moleque ainda não desceu.
Pra quem gosta de lutas, confrontos, artes marciais, Vagabond é um deleite. Nenhum embate se repete, sempre tem alguma novidade ou uma situação surpreendente. É uma história que não dá pra prever o que vai acontecer. Também é uma história bonita, com metáforas lindas e dramas envolventes. Ah! e que desenho maravilhoso!
sábado, 1 de julho de 2017
Maigret e os colegas americanos - Georges Simenon
Como esperado, Simenon apresenta outra leva de ótimos
personagens em meio a um intrigante caso de morte. Mas dessa vez, Maigret é um
mero expectador, que assim como nós, leitores, acompanha a investigação com
fascínio e curiosidade, mas de mãos atadas. Pois não estamos mais na França,
mas nos EUA.
Maigret está acompanhando o modus operandi dos colegas
americanos em diversas investigações criminais, uma espécie de intercâmbio
profissional, uma troca de experiências e conhecimentos. É no estado do Arizona
que Maigret encontra um caso intrigante: uma moça morta e 5 suspeitos clamando
inocência. Rapidamente o interesse de Maigret na investigação nos contagia
também, e a leitura segue rápida e fluida.
Elejo este o melhor livro de Maigret lido até o momento.
Engraçado que outro livro de Simenon que gosto bastante é justamente outra
história em que ele viaja (Maigret sai em viagem), acho que é reflexo do meu
interesse por viagens e culturas diferentes.
Neste livro, Maigret está longe de casa, sozinho com os seus
pensamentos. Reflete principalmente sobre as diferenças culturais entre França
e EUA. Sociedades diferentes, costumes diferentes, métodos de investigação
diferentes. Maigret observa tudo, vestimentas, arranha-céus, os bares, os
clubes, o uso exagerado do carro, e a dependência por álcool. O ápice desses
pensamentos está nas páginas 72 e 73, onde Maigret sugere existir uma miséria escondida
nessa sociedade, que parece ter tudo.
Leitura excelente! O final pode parecer um tanto frustrante,
mas o que importa não é o veredito, mas os esclarecimentos dos fatos. Nessa
história, além de leitores somos jurados também. Cabe a cada leitor dar o seu
veredito.
segunda-feira, 22 de maio de 2017
Nimona - Noelle Stevenson
Nimona é uma história surpreendente, a começar por se tentar classificar o seu gênero literário: uma HQ de fantasia medieval com toques de ficção científica e romance de cavalaria.
A história começa quando a garota Nimona encontra o maior vilão de todos os tempos, Lorde Ballister Coração Negro, para ser sua comparsa. Mas mal começam as vilanias dos dois anti-heróis, descobrimos que Nimona não é bem uma garota qualquer e Coração Negro não é de todo vilão. Aos poucos descobrimos as várias camadas dos personagens, enquanto a amizade deles se fortalece.
Em meio a muitas reviravoltas, a autora brinca com clichês e surpreende com uma trama ousada e original. Além disso, sacode o leitor com escolhas pouco convencionais para os seus personagens, como por exemplo a protagonista fora dos padrões de beleza: gordinha, de cabelo moderno e colorido. Assim como, Coração Negro, um vilão ético, justo e que não gosta de machucar as pessoas.
Deixando de lado o maniqueísmo comum a essas histórias de mocinhos e vilões, a autora entrega uma protagonista doce e sensível, que decide finalmente assumir o papel de vilã, que lhe foi imposto pela sociedade. Em contraponto, Coração Negro interpreta o vilão, sem incorporar suas características. Temos aí uma dupla interessante.
Nimona é uma história muito fofa sobre amizade e confiança, em que nem tudo é o que parece ser. Recomendo a leitura altamente.
A história começa quando a garota Nimona encontra o maior vilão de todos os tempos, Lorde Ballister Coração Negro, para ser sua comparsa. Mas mal começam as vilanias dos dois anti-heróis, descobrimos que Nimona não é bem uma garota qualquer e Coração Negro não é de todo vilão. Aos poucos descobrimos as várias camadas dos personagens, enquanto a amizade deles se fortalece.Em meio a muitas reviravoltas, a autora brinca com clichês e surpreende com uma trama ousada e original. Além disso, sacode o leitor com escolhas pouco convencionais para os seus personagens, como por exemplo a protagonista fora dos padrões de beleza: gordinha, de cabelo moderno e colorido. Assim como, Coração Negro, um vilão ético, justo e que não gosta de machucar as pessoas.
Deixando de lado o maniqueísmo comum a essas histórias de mocinhos e vilões, a autora entrega uma protagonista doce e sensível, que decide finalmente assumir o papel de vilã, que lhe foi imposto pela sociedade. Em contraponto, Coração Negro interpreta o vilão, sem incorporar suas características. Temos aí uma dupla interessante.
Nimona é uma história muito fofa sobre amizade e confiança, em que nem tudo é o que parece ser. Recomendo a leitura altamente.
quarta-feira, 19 de abril de 2017
Coração de tinta - Cornelia Funke
Os protagonistas são Mortimer e sua filha Meggie. Ele é um encadernador e restaurador de livros raros, e tem um estilo de vida discreto, recluso. Meggie é uma pré-adolescente que adora ler, e herdou do pai a paixão por livros. Já a mãe de Meggie desapareceu misteriosamente muitos anos atrás e esse assunto é um tabu na relação dos dois.
Coração de tinta é uma história original e interessante, mas pouco equilibrada. Tem um início enrolado, arrastado, que de tanto tentar esconder a verdadeira trama, acaba por tornar a história desinteressante. A aparição de personagens mais divertidos como Dedo empoeirado e a Tia Elinor, dá um fôlego temporário a historia, mas por pouco tempo. Nem a aparição do vilão consegue empolgar, além de ter um nome ruim, Capricórnio, é um personagem clichê, tedioso e, pior, não mete medo nenhum.
Mas a história toma um rumo inesperado com a aparição do escritor Fenoglio, um personagem chave nessa historia. Aí sim, o livro fica bom.
Um aspecto positivo, é que os capítulos são iniciados com passagens de outros livros, não é inédito, mas não deixa de ser legal. Esses trechos literários e o fato de os protagonistas serem leitores deixa história mais interessante. É atraente também a particular habilidade do protagonista Mortimer, me peguei divagando o que faria se tivesse a mesma capacidade.
Por fim, o livro é uma boa ideia, mas peca pela instabilidade. É uma série em 3 volumes, mas que não me deixou com vontade de continuar.
Coração de tinta é uma história original e interessante, mas pouco equilibrada. Tem um início enrolado, arrastado, que de tanto tentar esconder a verdadeira trama, acaba por tornar a história desinteressante. A aparição de personagens mais divertidos como Dedo empoeirado e a Tia Elinor, dá um fôlego temporário a historia, mas por pouco tempo. Nem a aparição do vilão consegue empolgar, além de ter um nome ruim, Capricórnio, é um personagem clichê, tedioso e, pior, não mete medo nenhum. Mas a história toma um rumo inesperado com a aparição do escritor Fenoglio, um personagem chave nessa historia. Aí sim, o livro fica bom.
Um aspecto positivo, é que os capítulos são iniciados com passagens de outros livros, não é inédito, mas não deixa de ser legal. Esses trechos literários e o fato de os protagonistas serem leitores deixa história mais interessante. É atraente também a particular habilidade do protagonista Mortimer, me peguei divagando o que faria se tivesse a mesma capacidade.
Por fim, o livro é uma boa ideia, mas peca pela instabilidade. É uma série em 3 volumes, mas que não me deixou com vontade de continuar.
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