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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O Cão que Guarda as Estrelas - Takashi Murakami

O último livro de 2014 foi na verdade um mangá. 

São duas histórias interligadas. A primeira é ama aventura linda de um senhor desempregado com o seu cãozinho, Happy. Sem dinheiro nem família, esse senhor viaja em direção ao interior do Japão, em busca das suas raízes, sempre acompanhado por Happy, que é também o narrador da história. Na segunda parte, temos o agente social Okutso, que tem a sua própria história com um cãozinho diferente e procura fazer uma boa ação para compensar seus erros do passado.

É um livro engraçado, triste e muito bonito. A primeira história é mais emocionante e toma mais tempo do livro. Já a segunda parte é mais curta e mais triste, mas mesmo assim tem um final belíssimo, de arrancar lágrimas. Além disso, é bastante original um cãozinho como narrador da história. Gostei também de as duas histórias não respeitarem uma ordem cronológica na narrativa, a primeira começa pelo fim, e a segunda intercala momentos no presente e no passado.

Esse livro/mangá é leitura boa para todo mundo, mas tenho certeza que terá um sabor mais especial para aqueles leitores que tem seus cãezinhos (filhinhos? amigos?) em casa.

Vi a indicação desse mangá no canal do youtube Tiny Little Things.
"Hoshi mamori inu" - em tradução literal, o cão que guarda as estrelas. É uma expressão japonesa usada para descrever uma pessoa que quer algo impossível. a origem vem da imagem do cachorro que fica olhando para o céu como se desejasse a estrela"

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O Evangelho segundo Jesus Cristo - José Saramago

Conta a vida de Jesus de Nazaré, desde sua concepção até a sua morte. Passa também pela história do Cristianismo, fustigando polêmicas e subvertendo alguns dogmas católicos.


Saramago nos apresenta um Jesus, acima de tudo, humano. Com qualidades, defeitos e necessidades de homem. Filho de José e Maria, mas também concebido de semente divina, e apadrinhado pelo próprio diabo. Deus aqui é um ser ardiloso, cruel e tirânico, que encontra na figura de Jesus a chave para os seus misteriosos planos. O livro começa e termina na crucificação, mas é possível dividir em duas partes: antes e depois do encontro de Jesus com Deus.


Na primeira, temos um excelente romance histórico, em que o pai humano de Jesus,  José,  domina como protagonista. José é um carpinteiro de pouco talento e às vezes preguiçoso, temente a Deus e muito conhecedor dos ensinamentos religiosos. Mas também é apresentado como um personagem cômico, sendo suas falas carregadas de ironia. É verdade que, confesso, não sei bem se esse tom irônico faz parte das entrelinhas ou se está por minha conta (parte do processo de leitura é o próprio leitor, não é?). Mas, conhecendo bem o autor, dou o crédito a ele. Já Maria desaparece diante da pequenez e irrelevância da mulher naquela sociedade.


A segunda parte do livro toma Jesus como protagonista e segue um rumo inesperado, é quando Jesus encontra Deus e é avisado (em parte) da sua natureza divina e da sua missão fúnebre. Acompanhamos então a sua vida antes da crucificação, o encontro com os apóstolos e com Maria de Magdala. Somos então presenteados com alguns esclarecimentos bíblicos e injustiças são corrigidas.

Saramago é tido como um autor de difícil compreensão, mas a verdade é que ele é apenas diferente do normal. Sua escrita causa estranheza no início, mas logo o leitor se habitua e a leitura se torna fluida.


Sem dúvida, o melhor momento é o grande encontro no mar: Jesus, deus e o diabo sentados numa canoa, tendo uma longa, reveladora e surpreendente conversa.


Mas o que causou espanto para mim, lendo esse livro, foi encontrar os milagres e as aparições divinas como tal, e não como imaginação/ilusão/loucura coletiva. Também surpreendeu o Diabo, numa figura humana tangível, sociável e complacente.


Por fim, é um livro sublime. Divertido e triste ao mesmo tempo. Tenho certeza que foi concebido em momento de inspiração divina (=D). Recomendo altamente a leitura. 

Felizes são aqueles que leem Saramago.

"Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez."

quinta-feira, 24 de julho de 2014

1Q84 v.1 - Haruki Murakami

O Q é de Question mark, o título poderia ser também 1?84, acho até que ficaria mais legal. Esse título enigmático faz referência ao clássico de George Orwell e também ao assunto principal do livro, universos paralelos. A história se passa no Japão, em 1984, e tem dois protagonistas, Tengo e Aoname. O primeiro é professor de matemática e escritor nas horas vagas. A segunda é instrutora de artes marciais e assassina, intercala essas duas atividades com orgias e sexo casual. O enredo segue um tom de mistério e fantasia, realidades alternativas, criaturas e acontecimentos estranhos, e mortes.  

Apesar de ter todos os ingredientes que agradam o meu paladar, achei a narrativa excessivamente lenta. Li que é característica do autor, mas achei algumas passagens enfadonhas. Tudo demora a acontecer, e quando acontece, é só um ensaio, um esboço ou anúncio de algo maior que vai acontecer depois. Os personagens principais são interessantes e achei engraçado a repetição de suas rotinas e pensamentos.

Não foi minha primeira experiência com a literatura japonesa, mas minha primeira vez com e-book. O ato de ler é o mesmo com um livro tradicional, não senti diferença. Mas fiquei um pouco confusa e meio perdida sem saber se estava no início, meio ou fim do livro, sensação estranha. Atrapalhou um pouco também a limitação de posições para ler no tablet. Com um livro tradicional a leitura pode ser feita até de cabeça para baixo. Mas são pormenores que incomodaram apenas no início da leitura, sendo esquecidos logo. Ler em e-book funcionou muito bem para mim, recomendo a experiência.

Voltando ao livro, não foi bem o que eu esperava, mas o texto é simples, corrido e a história é interessante. Fiquei curiosa para saber o desfecho, mas não é um sentimento urgente.  

"Tome cuidado quando estiver andando pela floresta. Nela existem coisas muito importantes, e é nela que vive o Povo Pequenino. Para que esse Povo Pequenino não te machuque, é preciso encontrar algo que eles não possuem."



sexta-feira, 20 de junho de 2014

A biblioteca no porão – Eustaquio Gomes


Nunca tinha ouvido falar de Eustáquio Gomes até encontrar esse livro com preço promocional. A capa logo me chamou a atenção e bastou ler os títulos dos capítulos para decidir por compra-lo. Isso foi em meados do segundo semestre de 2013. Comprei e deixei de lado, esquecido na estante até descobrir a morte prematura do autor aos 61 anos, em janeiro deste ano. Lamentei não ter começado a leitura de imediato.

Mencionei a capa do livro, é uma escadaria de palavras formada pela lista encontrada no capitulo O Bibliomaníaco, uma forma diferente de arrumação de estante sugerida pelo autor, baseada nos sentimentos causados pelos livros nos leitores. Lembrei do primeiro capítulo de Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino, que tem lista parecida (veja aqui).


O livro é uma coletânea de histórias sobre livros, autores e leitores. Começa com a mudança da biblioteca particular do autor para o porão da casa, o autor então decide mudar-se junto. Os capítulos são entremeados por ilustrações de pessoas lendo, o que torna a leitura mais especial. O texto de Eustáquio Gomes é criativo, simples e divertido. Destaco os capítulos O inferno é aqui mesmo” e “Livros breves”, este último atulhado de dicas de leituras. Muito divertido e surpreendente é o capítulo “O Falso poema de Borges”, de onde extraí a citação do fim desse texto.

Terminei a leitura desse livro com uma lista enorme de autores e livros para ler. Grande e preciosa herança.


"Sim, talvez seja melhor preservar a ilusão de vir a ser um alpinista ou de poder nadar contra a corrente a sacrificar-se em nome da verdade literária. Portanto, abaixo Borges! Viva Nadine Stair! Mas quem, diabo, é Nadine Stair?"

sábado, 15 de março de 2014

Carta a uma nação cristã - Sam Harris

Apesar de ser ateísta, sempre defendi que o mundo seria um lugar muito pior de se viver se não houvesse religião.  Mas depois de ler este livro, tenho cá as minhas dúvidas. O autor defende que toda religião é um mal que deve ser extinto. Associa religião a intolerância, ignorância e preconceito, e elenca uma série de erros e mancadas da bíblia.

Para mim, que sou novata em assuntos religiosos, foi surpreendente descobrir que a concepção imaculada de Jesus, na verdade, foi um erro de tradução.  Que a bíblia apoia a escravidão e que Madre Teresa pensava absurdos sobre o aborto.

Mais chocante é o que as pessoas fazem em nome de Deus. Espanta a existência de pessoas que acreditam em histórias sem pé nem cabeça, como a da citação do final deste texto.  

É ou não é um absurdo existir devotos de Poseidon nos dias de hoje? Eu hein...

Pois bem, está aí um livro para refletir sobre o papel da religião e a utilidade da fé na nossa sociedade.

Melhor parte: Todo o capítulo A verdadeira moralidade, sobre a implicância das religiões com o desenvolvimento de pesquisas científicas com células tronco. O capítulo é muito bem fundamentado e os argumentos são brilhantes. 

“Os que tem o poder de eleger presidentes, deputados e senadores – e muitos dos que são eleitos – acreditam que os dinossauros sobreviveram aos pares na arca de Noé, que a luz de galáxias distantes foi criada a caminho da Terra e que os primeiros membros da nossa espécie foram modelados a partir do barro e do hálito divino, em um jardim com uma cobra falante, pela mão de um deus invisível."

domingo, 9 de março de 2014

Quem poderia ser a uma hora dessas? – Lemony Snicket

Da nova série Só perguntas erradas, do autor-personagem Lemony Snicket. 

Conta o início da carreira de Lemony, na sociedade secreta VFD.  Primeiro caso, primeiro tutor. Um roubo aconteceu numa cidade a beira-mar chamada Manchada pelo Mar. Só que Lemony se depara com dois grandes problemas ao começar a investigar este caso: nada foi roubado e a cidade não fica a beira-mar.

Comparações são inevitáveis. A história é divertida, mas não está no mesmo nível da série dos órfãos Baudelaire. As ilustrações também estão aquém, comparadas com as de Desventuras em série.

Mas, mesmo assim, não deixa de ser uma boa e divertida leitura. Aguardo o lançamento dos próximos volumes.

Melhor parte: por ser bibliotecária, gostei das cenas passadas na biblioteca, com o sub-bibliotecário Qwerty.

"Faço o que faço – eu disse – para poder fazer outra coisa."

sábado, 8 de março de 2014

Emma - Jane Austen

Neste livro, Jane Austen bate na cara da sociedade inglesa do século 18 com muita graciosidade.

Emma Woodhouse é a jovem protagonista, rica, bem nascida, bem educada. Exerce muita influencia na sociedade da pequena Hughbury (um vilarejo que fica nos arredores de Londres – cerca de 2h de cavalo).  Mas Emma tem pensamentos e opiniões pouco convencionais para a época, ela não quer se casar, por exemplo. Ela também gosta muito de uma fofoca, e tem muito interesse na vida dos outros.  Emma foge um pouco da típica heroína, pois tem falhas de caráter, preconceito social e age de forma inadequada em alguns momentos.

A rotina fútil dos ricos e nobres daquela época, e os pensamentos preconceituosos são escancarados em quase todas as páginas. Em Emma, Jane Austen reflete sobre a submissão feminina, a futilidade da burguesia, os preconceitos sociais, a falsidade das pessoas, relações de interesse e, claro, sobre amor, e paixão, e romance...

Sem dúvida, o livro mais engraçado de Jane Austen.  As falas do senhor Woodhouse, pai da protagonista, são hilárias.  Adoro os personagens coadjuvantes de Jane Austen, aqui destaco também o cunhado de Emma, John Knightley e a esposa do vigário, Sra. Elton. O papel de cupido que Emma assume para casar a amiga também rende muita diversão.  

Tenho que dizer que me identifiquei bastante com a protagonista. 

Melhor momento: quando o Sr. Woodhouse entra em ação.

"A senhora está melhor colocada aqui, foi feita para ser esposa, não governanta. Mas estava se preparando para ser uma esposa perfeita o tempo todo que ficou em Hartfield. Pode não ter dado a Emma uma completa educação, como parecia prometer a sua posição, no entanto recebeu excelente educação por parte dela, que a ensinou a ter a qualidade principal para o casamento, que é anular a própria vontade e fazer tudo que é ordenado. " Sr. Knightley conversando com Sra. Weston