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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente - Agatha Christie

O grande e nada modesto detetive Hercule Poirot tem que investigar um assassinato ocorrido no famoso Expresso do Oriente, durante uma nevasca que impede o deslocamento do trem. O vaidoso detetive encontra algumas dificuldades, desafios, muitas pistas e muitos suspeitos, nesse seu mais famoso caso. Contudo, ninguém é páreo para as pequenas ideias do detetive, o que ele sempre faz questão de deixar bem claro.  

Na releitura desse clássico de Agatha Christie, procurei observar o que antes me passou batido: o percurso do trem e o tempo da viagem. Fiquei surpresa ao descobrir que o livro não se passa completamente no Expresso do Oriente, mas começa na Síria, num trajeto que segue de Alepo até Constantinopla (atual Istambul). É nesse trajeto esquecido que o meu detetive favorito tem acesso a uma conversa alheia que é importante no desenrolar dessa história.

O percurso do Expresso do Oriente mostrado nesse livro se origina então em Constatinopla, e segue com várias paradas até Londres, destino final de Hercule Poirot e de alguns personagens. Percorre realmente toda a europa, e tem tempo de viagem estimado em 3 dias. Mas nos trilhos desse trem, surge uma nevasca inesperada acompanhada de um assassinato, e nada mais sai como previsto.

É engraçado reler um livro policial, nunca tinha passado por essas experiência antes. Sabendo do desfecho, as conversas e o comportamento dos personagens ganham novo significado. E mesmo sabendo o final, surpresas ainda são possíveis, graças ao talento da Dama do Crime.

Um aspecto interessante que tinha esquecido sobre a autora, ela costuma zombar do leitor, através da voz do protagonista, lembrando que o leitor é incapaz de solucionar o mistério, e que não possui a lucidez e a imaginação necessárias para desvendar o crime junto com o detetive. Uma brincadeira da autora, claro! Mas também não deixa de ser uma provocação para que usemos a nossa pequena massa cinzenta.

Uma excelente leitura, rápida e prazerosa.

sábado, 1 de julho de 2017

Maigret e os colegas americanos - Georges Simenon

Como esperado, Simenon apresenta outra leva de ótimos personagens em meio a um intrigante caso de morte. Mas dessa vez, Maigret é um mero expectador, que assim como nós, leitores, acompanha a investigação com fascínio e curiosidade, mas de mãos atadas. Pois não estamos mais na França, mas nos EUA.

Maigret está acompanhando o modus operandi dos colegas americanos em diversas investigações criminais, uma espécie de intercâmbio profissional, uma troca de experiências e conhecimentos. É no estado do Arizona que Maigret encontra um caso intrigante: uma moça morta e 5 suspeitos clamando inocência. Rapidamente o interesse de Maigret na investigação nos contagia também, e a leitura segue rápida e fluida.

Elejo este o melhor livro de Maigret lido até o momento. Engraçado que outro livro de Simenon que gosto bastante é justamente outra história em que ele viaja (Maigret sai em viagem), acho que é reflexo do meu interesse por viagens e culturas diferentes. 

Neste livro, Maigret está longe de casa, sozinho com os seus pensamentos. Reflete principalmente sobre as diferenças culturais entre França e EUA. Sociedades diferentes, costumes diferentes, métodos de investigação diferentes. Maigret observa tudo, vestimentas, arranha-céus, os bares, os clubes, o uso exagerado do carro, e a dependência por álcool. O ápice desses pensamentos está nas páginas 72 e 73, onde Maigret sugere existir uma miséria escondida nessa sociedade, que parece ter tudo. 

Leitura excelente! O final pode parecer um tanto frustrante, mas o que importa não é o veredito, mas os esclarecimentos dos fatos. Nessa história, além de leitores somos jurados também. Cabe a cada leitor dar o seu veredito.

terça-feira, 28 de março de 2017

Desventuras em Série v.3 e v.4, O lago das sanguessugas e Serraria baixo-astral- Lemony Snicket

As desventuras dos irmãos Baudelaire continuam.

Nesta segunda leitura, tenho observado que o Conde Olaf está muito mais maldoso e violento. Continua incrivelmente engraçado, mas muito mais vil, e cínico! O disfarce de Shirley ficou muito engraçado e estou ansiosa pra ver como deixaram Neil Patrick Harris na adaptação pra Netflix. No volume 4, senti falta do Conde Olaf, pois ele só apareceu na metade pro final e ainda assim, poucas vezes. O capataz Flacutono foi quem roubou a cena, e por vezes me confundiu achando que seria Olaf. Faz muitos anos que li os livros e não tenho muitas lembranças dos disfarces do Conde Olaf, Shirley surpreendeu. Embora nesses primeiros volumes o autor tenha seguido uma fórmula, os plano mirabolantes de Olaf para conseguir a fortuna dos Baudelaire são sempre originais.   

As mortes também ficaram mais violentas, comparando com os primeiros volumes. Ser devorado por sanguessugas e esmagado numa máquina de prensar madeira não são mortes comuns em livros para criancinhas. 

A personagem Tia Josephine é hilária, as correções gramaticais, os seus medos e o diálogo final dela com Olaf me arrancaram boas risadas. Da mesma forma, o duelo de Sunny (dente x espada) no livro 4 foi surreal e muito engraçado. E Phil, o otimista, continua na minha lista de melhores personagens. Acho divertido como ele só enxerga o lado bom de tudo. Um personagem que tem crescido bastante é o Sr. Poe. Antes achava ele chato, mas nessa releitura ele tem se mostrado bem engraçado. Eu acho interessante que os adultos são geralmente irresponsáveis e imuteis, mas mesmo assim os órfaos conseguem enxergar qualidades e nutrir algum grau de afeição por eles, pelo menos em relação aos tutores Tio Monty e Tia Josephine.

A história dos órfãos Baudelaire fica melhor a cada livro. Não sei se é uma série que agradaria a todos, por que tem um humor bem característico, muita ironia e humor negro. Além disso, os personagens adultos são bem caricaturais (atrapalhados, carentes, bobões). E as situações são irreais, surreais, assim como alguns diálogos. Isso tudo me agrada imensamente, mas algumas pessoas podem considerar como defeitos. 

Lamento muito a tradução brasileira não ter seguido a brincadeira dos títulos originais. As iniciais dos títulos são sempre repetidas nos volumes (The Wide Window e The Miserable Mill, por exemplo). Embora não tenha um significado mais profundo, é divertido. Bom, estou bem ansiosa para o volume 5 e 6, pois são os meu favoritos.

quarta-feira, 8 de março de 2017

O sol é para todos - Harper Lee

A história nos é contada pela personagem Scout, que já adulta (ou mais velha) relembra os fatos que acompanharam a época em que o pai dela defendeu um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca. Isso lá nos anos de 1930, onde o racismo e a segregação americana estavam no auge. Atticus, o pai, sendo um advogado branco, sofre retaliação e acusações da comunidade branca e conservadora do local, que não aceita que ele defenda um homem negro. Scout narra o seu cotidiano, suas brincadeiras, seus primeiros dias na escola e também o tal caso em que seu pai é advogado, sendo justamente o clímax da historia, o julgamento.

O tema principal abordado nesse livro é o racismo, sem dúvida. Mas as partes mais lindas e inesquecíveis são aquelas que tratam da infância da personagem Scout, as brincadeiras, as férias escolares, os amigos de infância. O universo dos adultos também é mostrado através do olhar da personagem, que ganha novo significado com o ponto de vista doce, infantil e ingênuo dela.

O personagem mais interessante é o pai, Atticus. Um senhor já quase idoso, viúvo, muito bem quisto na comunidade, e que está determinado a fazer o que é certo, mesmo que não seja o esperado pelas pessoas com quem convive. Um personagem de várias camadas, que conquista pela coragem e lucidez, embora também cometa erros.

Não poderia deixar de falar da belíssima metáfora do título original: How to kill a monckinbird. Que faz referência a covardia que se comete matando passarinhos por esporte, associada a uma morte injusta que ocorre no livro. É tocante!  

É um livro muito sensível, um drama que arranca lágrimas, mas que foge do novelesco e da pieguice. É um livro encantador.

A parte final é belíssima, mostra o amadurecimento de Scout. É de uma sensibilidade gigante. Um dos momentos mais lindos que já li. É um livro formidável, que desperta vários sentimentos e sensações. Que pedi uma releitura assim que é acabado. É por isso que é um livro que mesmo tão jovem, já é um clássico.


"-Bem, muita gente pensa que elas é qu'tão certas e 'ocê é qu'tá enganado...
          -Elas tem todo o direito de pensar dessa forma, como também tem o direito a que as suas          
          opiniões sejam respeitadas - disse Atticus - mas antes de viver com outros, tenho de viver      
         comigo próprio. E a única coisa que se sobrepõe à regra da maioria é a nossa consciência." 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Desventuras em Série v.2: A Sala dos Répteis - Lemony Snicket

O que já era muito bom, melhorou ainda mais neste segundo volume da saga dos órfãos Baudelaire.

Tudo parece caminhar para um final feliz quando os órfãos são levados para o novo tutor, Tio Monty. Um pesquisador de cobras, que mora numa mansão e tem uma sala especial onde guarda todos os espécimes de ofídios que consegue capturar. O que parece assustador é na verdade muito divertido e as crianças finalmente conseguem se sentir felizes. Mas, por pouco tempo. Com a chegada do novo assistente de Tio Monty, a sorte dos Baudelaire muda radicalmente. Mais assustador do que nunca, o Conde Olaf mostra o que é capaz de fazer para conseguir a fortuna dos órfãos.

A principal mudança que senti em relação a primeira leitura e essa releitura é o sentimento despertado pelo Conde Olaf. Antes, achava-o engraçado e bizarro, agora fico um pouco assustada (e também um tanto chocada) com suas falas e ações intimidantes. Principalmente quando ele ameaça a bebê Sunny. É um vilão horrível, mas, ainda continua muito engraçado.

As intervenções do narrador Lemony, neste livro, estão bem melhores. Ele brinca com as palavras e significados e também faz graça em momentos de suspense. Suspeito que só melhora daqui pra frente.

Esse livro é bem mais engraçado que o anterior.

Abaixo, um trecho melancólico:
"É uma coisa curiosa, a morte de um ente querido. Todos sabemos que nosso tempo neste mundo é limitado, e que finalmente todos acabaremos debaixo de algum lençol, para não acordar nunca mais. No entanto, é sempre uma surpresa quando isso acontece a alguém que conhecemos. É como subir a escada para o seu quarto no escuro, e achar que há mais de um degrau do que realmente há. O pé resvala no ar e segue-se um aflitivo momento em que, colhida às cegas pela surpresa, a pessoa tenta adaptar-se à escuridão."

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Desventuras em Série v.1: Mau Começo - Lemony Snicket

Para acompanhar o lançamento da nova série da Netflix, decidi reler esses livrinhos maravilhosos que me fizeram a alegria alguns anos atrás. Já havia escrito um textinho sobre eles aqui e marquei-os na categoria de favoritos, junto com Italo Calvino e Saramago.

Este primeiro volume conta a história dos órfãos Baudelaire na sua primeira e mais terrível morada: a mansão do grande vilão Conde Olaf. A história é bem ameaçadora, do começo ao fim, e em alguns momentos, principalmente no final, se torna um ótimo suspense. Lembro que achava o conde muito engraçado, mas nessa releitura achei o conde amedrontador. Mesmo nas partes nonsense, como no jantar para a trupe de teatro. E falando neles! que grupo mais inacreditável. Adoro todos esses personagens da trupe do Conde Olaf.     

O livrinho é muito bom!! digo livrinho por que é pequeno e a leitura flui muito facilmente. Mas na verdade, é um grande livro com uma história muito envolvente. Confesso que achei o começo meio lacônico, resumido, mas basta a chegada do grande vilão para tornar a história atraente. Na verdade, esse início pode ser interpretado também como um começo misterioso, já que iremos conhecer a história da morte dos pais por partes, ao longo dos 13 volumes. 

A minha ideia inicial era reler no idioma original, já que li toda a série em português, e apenas o último em inglês. Mas não me organizei direito e acabei por reler em português mesmo. Tentarei com mais afinco conseguir os próximos livros em inglês. 

Deixo aqui uma passagem terrível:
 "Ainda que seja a última coisa que eu faça, hei de ficar com a sua fortuna", zumbiu a voz. "E quando tiver conseguido isso, vou matá-los, os três, com as minhas próprias mãos."

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

As Brumas de Avalon - Marion Zimmer Bradley (4 volumes)

Meu conhecimento sobre as histórias do Rei Artur era inexistente até ano passado, quando fui apresentada a Howard Pyle e o seu Rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda. Antes disso, apenas sabia de ouvir falar sobre o romance de Lancelote com a rainha, e alguma pouca coisa sobre o santo graal e os cavaleiros do Rei Artur. Minha primeira experiência com as lendas arturianas não foi muito boa, e a primeira impressão dos personagens também não foi das melhores. Mas persisti e encontrei essa pérola de Marion Zimmer Bradley, que me deixou arrebatada do início ao fim.

As Brumas de Avalon é uma história em 4 volumes que conta como foi o reinado de Artur e do pai dele, Uther, a partir da perspectiva de quatro mulheres: Gwenhwyfar, Morgana, Mourgause e Igraine, sendo Morgana a protagonista. Aqui e acolá também nos encontramos com Viviane e Niniane, Rainhas do Lago e Senhoras de Avalon, e também Nimue, uma sacerdotisa de Avalon com uma história tristíssima. Entre as guerras enfrentadas contra os saxões pelos reis Uther e Artur, acompanhamos também outra guerra, a maior de todas, o confronto da velha religião com a nova, o cristianismo. Morgana encara o avanço do cristianismo como um mal que precisa ser freado. Na sua visão, os velhos costumes e o povo antigo estão em perigo, e é preciso fazer alguma coisa para barrar esse mal. 

Além desse aspecto político-religioso, presentes nos quatro volumes, encontramos também outros temas essenciais na obra, como homossexualidade, incesto e adultério. A posição social da mulher e a sua relação com a igreja católica também são temas presentes. Todos eles, junto com personagens inesquecíveis, contribuem para o caráter subversivo dessa obra. Além disto tudo, o texto da autora é inteligente e envolvente, e cativa o leitor do início ao fim.

Por ser uma história que abrange muitos anos e algumas gerações de personagens, é até injusto destacar só alguns. Mas preciso mencionar aqueles que me seduziram e que me deixaram o desejo de ler mais e saber mais sobre eles: Viviane, Kevin, o harpista e a própria Morgana, os três com histórias lindas, tristes e trágicas. Sinto falta de não estar lendo mais sobre suas vidas.

A queda e ascensão de Morgana estão entre as partes mais emocionantes e mais bonitas de todos os volumes, o desfecho da história de Viviane entre os mais surpreendentes e o final é simples e poético.

Achei extremamente bem feito como a autora deixa uma sensação de passagem de tempo muito forte. Li os livros um atrás do outro, mas tenho o sentimento de anos e anos de diferença do primeiro até o último. Como se Gorlois e Uther, e até mesmo Igraine, fossem personagens de uma outra vida, achei isso sensacional.

Mesmo depois de terminada a leitura, já faz algumas semanas, ainda penso nos mistérios de Avalon e nos encantamentos da Senhora do Lago, e quero retornar logo a este mundo, numa nova leitura. Sem dúvida, até aqui, já antecipo, foi a melhor leitura do ano.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Grandes esperanças - Charles Dickens

Não sei porque nunca tinha lido nada de Charles Dickens. É autor consagrado, popular, inglês e nunca esteve em nenhuma lista minha de próximas leituras, nem de autores indispensáveis. O equívoco começou a ser corrigido com a leitura do excelente Grandes esperanças.

O livro é um passeio por Londres nos primeiros anos do século 19. Acompanhamos a história de Pip, um menino pobre e órfão, criado a "mão" por sua irmã mais velha e seu esposo Joe, o ferreiro. Pip tem seu destino alterado em dois momentos da história, o primeiro é quando cruza o caminho de um presidiário foragido, que precisa da sua ajuda. E o segundo é quando passa a frequentar a casa de Miss Havisham, uma senhora esquisita e muito rica que talvez possa trazer benefícios para Pip. O condenado é assustador e causa grande impressão no menino. Mas é a vivência na casa de Miss Havisham que vai alterar profundamente a personalidade do garoto.

Miss Havisham é a personagem mais interessante desse livro. Uma solteirona meio maluca que foi abandonada no dia do casamento e desde então deixou de viver. Ainda veste o vestido de noiva e conserva os comes e bebes que seriam consumidos na festa de casamento, que nunca aconteceu. Uma figura.

O título vem do surgimento de um misterioso benfeitor, que apadrinha Pip e financia a sua educação. Lançando grandes expectativas sobre o futuro do jovem. A identidade do padrinho permanece secreta até perto do final, o que gera muitas especulações.

O livro é dividido em 3 partes, sendo as duas primeiras impecáveis. Já a terceira e última desanda um pouco, e poderia facilmente ser chamada de "grandes coincidências". Apesar da última parte, o livro é excelente, em poucos capítulos já havia experimentado vários sentimentos distintos. Os personagens são cativantes, como Biddy e o ferreiro Joe. Até mesmo a insuportável Estella desperta afeição.

Adorei a experiência de ler Charles Dickens e mal posso esperar para pegar o próximo livro dele.
Tive dificuldade em selecionar apenas um trecho do livro para encerrar este texto, então aqui estão quatro passagens:

"Eu era covarde demais para fazer o que eu sabia que era certo, como tinha sido covarde demais para evitar fazer aquilo que eu sabia ser errado."
"Então olhei para as estrelas, e pensei em como seria terrível para um homem erguer o rosto para elas enquanto congelava até a morte, sem ver qualquer ajuda ou piedade naquela multidão de astros cintilantes".
"No pequeno mundo em que vivem as crianças, não importa quem as crie, nada é mais delicadamente percebido, nada é mais delicadamente sentido que a injustiça."
"Nenhum trapaceiro na face da terra nos engana tão bem quanto o trapaceiro que existe em nós".

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Extra Stuff: Top 5 Agatha Christie

Agatha Christie é minha escritora favorita de romances policiais e Hercule Poirot o meu personagem preferido desse gênero. Cometi o grande erro de ler 85 livros dela em um curto período de tempo e hoje não tenho mais nada para ler.Deveria ter sido mais comedida e lido aos pouquinhos, deveria ter distribuído os livros ao longos dos meus anos de vida.

Meu primeiro livro da Dama do Crime foi O natal de Poirot, e na época - mais de 15 anos atrás - eu não sabia nada dela nem do belga. Surtei quando descobri que existiam mais livros, pois logo de cara adorei Poirot. Sobre Miss Marple, no início não simpatizei muito com ela, achava a velhinha super intrometida e atravessada. Mas depois de ler Assassinato na casa do pastor, passei a apreciar as suas histórias. Adorava os livros de Tommy e Tuppence, que acompanhavam diversos momentos da vida do casal. Pena que só tiveram cinco livros. Gostava também dos livros que mostravam as viagens de Poirot pelo oriente, como Morte da Mesopotâmia e Morte no Nilo. E o que dizer dos títulos? Um brinde de cianureto - Por que não pediram a Evans? - É fácil matar - Convite para um homicídio. Dentre muitos outros títulos igualmente instigantes.

Bom, segue então a minha lista de cinco livros inesquecíveis de Agatha Christie, sem ordem de preferência:

  • O natal de Poirot - meu primeiro encontro com a autora e com Poirot.
  • Assassinato no Expresso do Oriente - o livro  mais famoso da autora e com o desfecho  mais surpreendente de todos.
  • O caso dos dez negrinhos (hoje chamado E não sobrou nenhum) - um thriller psicológico com vários personagens e que dá um medinho danado. 
  • O assassinato de Roger Ackroyd - Considerado a obra prima da autora, este livro é sensacional. Uma vez que trás uma perspectiva de narrativa diferente para o leitor.
  • O segredo de Chimneys - livro com o inesquecível e maravilhoso galã e príncipe encantado Anthony Cade.
Menção honrosa para Os crimes ABC, que, na minha humilde opinião, seria o crime perfeito se não fosse por Poirot. Além disso, dois personagens adoráveis estão nesse livro: Japp e Hastings.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O Evangelho segundo Jesus Cristo - José Saramago

Conta a vida de Jesus de Nazaré, desde sua concepção até a sua morte. Passa também pela história do Cristianismo, fustigando polêmicas e subvertendo alguns dogmas católicos.


Saramago nos apresenta um Jesus, acima de tudo, humano. Com qualidades, defeitos e necessidades de homem. Filho de José e Maria, mas também concebido de semente divina, e apadrinhado pelo próprio diabo. Deus aqui é um ser ardiloso, cruel e tirânico, que encontra na figura de Jesus a chave para os seus misteriosos planos. O livro começa e termina na crucificação, mas é possível dividir em duas partes: antes e depois do encontro de Jesus com Deus.


Na primeira, temos um excelente romance histórico, em que o pai humano de Jesus,  José,  domina como protagonista. José é um carpinteiro de pouco talento e às vezes preguiçoso, temente a Deus e muito conhecedor dos ensinamentos religiosos. Mas também é apresentado como um personagem cômico, sendo suas falas carregadas de ironia. É verdade que, confesso, não sei bem se esse tom irônico faz parte das entrelinhas ou se está por minha conta (parte do processo de leitura é o próprio leitor, não é?). Mas, conhecendo bem o autor, dou o crédito a ele. Já Maria desaparece diante da pequenez e irrelevância da mulher naquela sociedade.


A segunda parte do livro toma Jesus como protagonista e segue um rumo inesperado, é quando Jesus encontra Deus e é avisado (em parte) da sua natureza divina e da sua missão fúnebre. Acompanhamos então a sua vida antes da crucificação, o encontro com os apóstolos e com Maria de Magdala. Somos então presenteados com alguns esclarecimentos bíblicos e injustiças são corrigidas.

Saramago é tido como um autor de difícil compreensão, mas a verdade é que ele é apenas diferente do normal. Sua escrita causa estranheza no início, mas logo o leitor se habitua e a leitura se torna fluida.


Sem dúvida, o melhor momento é o grande encontro no mar: Jesus, deus e o diabo sentados numa canoa, tendo uma longa, reveladora e surpreendente conversa.


Mas o que causou espanto para mim, lendo esse livro, foi encontrar os milagres e as aparições divinas como tal, e não como imaginação/ilusão/loucura coletiva. Também surpreendeu o Diabo, numa figura humana tangível, sociável e complacente.


Por fim, é um livro sublime. Divertido e triste ao mesmo tempo. Tenho certeza que foi concebido em momento de inspiração divina (=D). Recomendo altamente a leitura. 

Felizes são aqueles que leem Saramago.

"Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez."

sábado, 1 de novembro de 2014

A abadia de Northanger – Jane Austen

Esse livro destoa dos outros e mais famosos livros de Jane Austen. Aqui a autora brinca um bocado com a protagonista, a jovem e ingênua Catherine e também com um gênero literário em moda na época, o romance gótico.

Neste livro, que foi publicado postumamente, os livros e os leitores ocupam lugar de destaque na trama. Sendo a literatura gótica tratada de forma satírica.

Catherine é uma menina solteira, é filha de um clérigo e, portanto, pobre, mas que vive confortavelmente. É também amante da leitura, fã da literatura gótica. Catherine tem sua rotina tranquila alterada quando é convidada a passar uns dias em Bath, uma cidade vibrante onde tudo acontece. Lá conhece não um, mas dois pretendentes: Henry e Jonh. Apaixonada pelo primeiro e cortejada pelo segundo, Catherine vive, na verdade, nas páginas dos livros. É uma protagonista sonhadora, que vive nas fantasias que lê.

Obviamente, Catherine conseguirá fazer a transição da vida de criança para a vida de adulto, ou, da fantasia para a realidade. E conseguirá alcançar o mais alto objetivo de toda jovem naquela época: o casamento.

Apesar de o casamento ser sempre o final feliz encontrado nos livros de Jane Austen, tem que se valorizar a posição da autora, desgostosa da situação da mulher naquela época. É possível até interpretar esse “final feliz” em suas histórias como uma grande ironia.

Esse livro, depois de Persuasão, está no meu TOP 3 livros de Jane Austen, seguido de Emma.

Logo anunciaram que a carruagem estava pronta; e Catherine, erguendo-se de um salto, um longo e carinhoso abraço fez as vezes das palavras ao se dizerem adeus; e, ao entrarem no saguão, incapaz de deixar a casa sem mencionar alguém cujo nome não fora pronunciado por nenhuma das duas, ela parou um instante e com voz trêmula, apenas tornou inteligível que deixava “as melhores lembranças ao amigo ausente”. Mas o fato de quase ter pronunciado o nome dele acabou com qualquer possibilidade de refrear seus sentimentos; e, escondendo o rosto o melhor que pode com o lenço, atravessou correndo o saguão, pulou dentro da chaise e num instante já se afastava da casa.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O cavaleiro inexistente - Italo Calvino

Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, cavaleiro de Selimpa Citeriore e Fez, é um paladino do exército de Carlos Magno, cumpre sua função com extremo rigor e competência. Possui uma armadura branca, a mais limpa de todo o batalhão. Eficiente, executa suas atribuições com perfeição e diligencia as tarefas dos outros com primor, age sempre para o bem do exército. Agilulfo, um exemplo de cavaleiro, possui apenas um defeito: não existe!  Por baixo do elmo, nada. A sua armadura branca caminha vazia.

Esse romance de Italo Calvino guarda semelhanças com Dom Quixote, de Cervantes. Dois honrados cavaleiros que enfrentam uma jornada de aventuras, batalhas e muita falta de sentido. Sátiras dos romances de cavalaria, essas duas obras são clássicos da literatura mundial.

O Cavaleiro inexistente faz parte da trilogia Os Nossos antepassados, formada também por O Visconde partido ao meio e O Barão nas árvores. Obras que tem o absurdo e o fantástico como mote. A leitura desse livro é bastante agradável e fluida, o livro é divertido e os personagens carismáticos. Apesar de ser um livro curto, com menos de 200 páginas, Calvino consegue segurar o leitor com uma narrativa dinâmica e bem estruturada. É um livro muito bom, engraçado, uma leitura perfeita para uma tardezinha ociosa.

“Agilulfo pareceu hesitar um momento, depois com mão firme e lenta ergueu a viseira. Vazia o elmo. Na armadura branca com penacho iridescente não havia ninguém.- Ora, ora! Cada uma que se vê! – disse Carlos Magno. – E como é que está servindo, se não existe?- Com força de vontade – respondeu Agilulfo - e fé em nossa santa causa!

domingo, 30 de março de 2014

O Egípcio – Mika Waltari


Li esse livro tem muitos anos, e guardo boas memórias da leitura. Foi o primeiro romance histórico que li e fiquei bastante impressionada com a riqueza da reconstituição da época, o Egito antes de Cristo.  

O Protagonista é o médico do faraó, Sinuhe.  A história acompanha vários momentos da sua vida. A origem humilde, a linda e irresistível Nefernefernefer, as passagens pela Siria, Babilônia e Creta.  Como toda historia que envolve jogos de poder, o livro é cheio de intrigas, traições, violência e corações partidos.

O livro magnífico.  A grandiosa cultura egípcia serve de cenário para fatos e personagens históricos que surgem no livro. Sinoeh é o melhor tipo de personagem, um quase anti-herói, cheio de falhas, mas que conquista de cara o leitor.


Melhor parte:  De muitas, adorei o golpe de mestre que Sinoeh impõe aos hicsos.

"Eu, SINUEH, filho de Senmut e de sua mulher Kipa, escrevo isto. Não escrevo para a glória dos deuses da terra de Kan porque estou cansado de deuses, nem para a glória dos faraós porque estou cansado de seus feitos. Também pouco escrevo por medo ou por qualquer esperança no futuro; escrevo para mim, apenas."


sábado, 8 de março de 2014

Desventuras em série - Lemony Snicket (coleção)


A série possui 13 livros, cada volume narra os infortúnios dos órfãos Baudelaire, Violet, Klaus e a bebê Sunny, que são perseguidos pelo vilão Conde Olaf, que pretende mata-los e roubar-lhes a fortuna.

Os livros são marcados pela infelicidade dos protagonistas,  que contam apenas uns com os outros para sobreviver numa sociedade fictícia, onde os adultos são omissos, covardes e interesseiros.

A triste história dos órfãos é contada em tom sarcástico e irônico pelo personagem-autor Lemony Snichet, pseudônimo de Daniel Handler.  Apesar do teor lúgubre, a série é uma verdadeira comédia de humor negro, e um perfeito exemplar da Literatura Gótica Infanto-Juvenil.

Os livros são muito bem escritos, a história é excelente e muito cativante. O autor parece se divertir junto com o leitor, brinca com as palavras e seus significados, faz divertidas referencias a outras obras literárias, desenvolve uma linguagem pouco convencional e deliciosa, e faz uma campanha de marketing bastante curiosa.

Apesar de ser uma história triste, é muito engraçada e o divertimento já começa daí. As edições em língua original são um show a parte, o último livro, por exemplo, é “inacabado” e foi preciso destacar todas as 324 páginas para lê-lo.

Destaco as ilustrações de  Brett Helquist.

Melhor parte: Gosto muito quando o autor-personagem Lemony, interrompe a narração para divagar sobre o significado das palavras. Gosto também dos disfarces de Conde Olaf.

"Para Beatrice:
Meu amor por você viverá para sempre. Você não teve a mesma sorte."

Emma - Jane Austen

Neste livro, Jane Austen bate na cara da sociedade inglesa do século 18 com muita graciosidade.

Emma Woodhouse é a jovem protagonista, rica, bem nascida, bem educada. Exerce muita influencia na sociedade da pequena Hughbury (um vilarejo que fica nos arredores de Londres – cerca de 2h de cavalo).  Mas Emma tem pensamentos e opiniões pouco convencionais para a época, ela não quer se casar, por exemplo. Ela também gosta muito de uma fofoca, e tem muito interesse na vida dos outros.  Emma foge um pouco da típica heroína, pois tem falhas de caráter, preconceito social e age de forma inadequada em alguns momentos.

A rotina fútil dos ricos e nobres daquela época, e os pensamentos preconceituosos são escancarados em quase todas as páginas. Em Emma, Jane Austen reflete sobre a submissão feminina, a futilidade da burguesia, os preconceitos sociais, a falsidade das pessoas, relações de interesse e, claro, sobre amor, e paixão, e romance...

Sem dúvida, o livro mais engraçado de Jane Austen.  As falas do senhor Woodhouse, pai da protagonista, são hilárias.  Adoro os personagens coadjuvantes de Jane Austen, aqui destaco também o cunhado de Emma, John Knightley e a esposa do vigário, Sra. Elton. O papel de cupido que Emma assume para casar a amiga também rende muita diversão.  

Tenho que dizer que me identifiquei bastante com a protagonista. 

Melhor momento: quando o Sr. Woodhouse entra em ação.

"A senhora está melhor colocada aqui, foi feita para ser esposa, não governanta. Mas estava se preparando para ser uma esposa perfeita o tempo todo que ficou em Hartfield. Pode não ter dado a Emma uma completa educação, como parecia prometer a sua posição, no entanto recebeu excelente educação por parte dela, que a ensinou a ter a qualidade principal para o casamento, que é anular a própria vontade e fazer tudo que é ordenado. " Sr. Knightley conversando com Sra. Weston

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Persuasão - Jane Austen

Jane Austen é sempre garantia de leitura agradável. Escrita simples e objetiva, com pitadas de ironia e muito romantismo. Os diálogos são bem construídos e o texto é muito bem amarrado.

Em Persuasão, a protagonista, rica e bem nascida, Anne Elliot, é convencida pela família a encerrar o namoro com um rapaz pobre, Frederick Wentworth, que não trazia nenhuma vantagem para a família de Anne. Anos depois, os dois se reencontram, ele um rico e importante oficial da marinha, ela perdendo a juventude e em situação financeira delicada. Ela, ainda apaixonada e arrependida, e ele? interessado em outra...

O livro se distancia da historinha mamão com açúcar, traz reflexão a respeito do significado da mulher na sociedade do final do século 18 e início do século 19. Além disso, opõem-se aos preconceitos e normas sociais da época.

Algo interessante, que me chama atenção em Jane Austen, e nesse livro em especial, é a força dos personagens coadjuvantes. Tão ricos quanto os protagonistas, tão bem desenvolvidos quanto. O que enriquece o texto e aproxima ainda mais o leitor da história.

Acho esse o livro mais romântico de Jane Austen, e é o meu preferido. 

O melhor momento é o final, onde tudo é esclarecido, perdoado e o amor acontece. Ops! contei o fim. (Alerta de spoiler atrasado)


“Não consigo mais ouvir em silêncio. Tenho de falar com você com os meios que estão ao meu alcance. Você traspassa a minha alma. Sou agonia e esperança. Não me diga que é tarde demais...” Frederick Wentworth para a amada Anne Elliot

O Guia do Mochileiro das Galáxias - Douglas Adams (coleção)


Não entre em Pânico!




O guia do mochileiro das galáxias é uma série de cinco livros, escrita pelo britânico Douglas Adams, com publicação iniciada em 1979. Sucesso absoluto entre os fãs de ficção científica, essa comédia interplanetária brinca com questões relacionadas a política, filosofia, religião e ciência. Consegue entreter o leitor com uma narrativa sarcástica e divertida, repleta de ironias, humor negro e momentos surreais.

O título da série faz referência ao guia mais completo da história do universo, o livro eletrônico O Guia do Mochileiro das Galáxias. Este livro deve estar presente na mochila de todo o viajante espacial, pois traz registros e informações sobre tudo. 

O enredo acompanha o inglês Arthur Dent, que consegue escapar da destruição do planeta Terra junto do seu amigo alienígena Ford Perfect. Os dois se unem ao depressivo robô Marvin, ao presidente da galáxia e fugitivo, Zaphod Beeblebrox, e a também inglesa Trillian, que viajam pelo espaço em uma nave espacial roubada. No decorrer da história, encontramos planetas exóticos, seres bizarros, viagens no tempo, conspirações intergalácticas, super computadores e conhecemos a resposta para a vida, o universo e tudo mais.

Livro incrível, leitura deliciosa, autor brilhante. É sem dúvida um clássico da literatura de ficção científica. 

Melhor parte: todas com Zaphod Beeblebrox.


'Recuso-me a provar que eu existo', diz Deus, 'pois a prova nega a fé, e sem fé não sou nada.' Deus

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Ex-libris: Confissões de Uma Leitora Comum - Anne Fadiman

É um livro apaixonante, para apaixonados por leitura.

É, na verdade, uma compilação de ensaios, escritos pela autora e publicados numa coluna chamada ‘O leitor comum’. São 18 ensaios que tratam de livros e da relação da autora com os livros e a leitura. Ou, como diz na capa, é uma declaração de amor aos livros.

A narrativa é bem humorada e extremamente romântica. A autora é declaradamente apaixonada por livros, e revela grande intimidade com o tema. Conta histórias lindas, engraçadas, suas, de amigos e de sua família. Ela vive um verdadeiro romance com os livros. 


Fala de tudo o que é relacionado a livros, desde organização de biblioteca particular até o modo que um livro deve ser tratado. Defende, inclusive, que um livro não serve apenas para ler, mas para riscar, rasgar, anotar e até mesmo servir de calço para mesas e bancos. Enfim, a maior tragédia que pode acontecer a um livro é não ser lido, não é verdade? segundo a autora, sim.

Devemos ser amantes carnais ou amantes corteses? Estou mais para amante carnal possessiva, pois tenho livros rabiscados, sujos e fedidos, mas não admito outra pessoa com dedos gordurosos folheando as minhas páginas babadas. 

O melhor momento é o capitulo Nada de Novo Sob o Sol, sobre plágios e plagiadores, ou melhor, sobre os “assaltantes do intelecto dos outros”, ou melhor ainda, sobre os “dedos leves” literários. Engraçadíssimo.

Destaque para a edição cuidadosa da Jorge Zahar.

“A coisa mais permanente – e, portanto, para o amante cortês, a mais terrível – que alguém pode deixar num livro são suas próprias palavras.”